Pais que passam muito tempo longe dos filhos precisam reforçar afeto

Carinho se constrói a partir da qualidade dos momentos compartilhados

Por Natalia do Vale - publicado em 23/06/2010


Copa do Mundo rolando e para muitos jogadores da seleção, o clima é de saudade. Entre o período de concentração e os jogos, são mais de 30 dias longe da família.

Durante a partida, os pais corujas também entram em ação e o que não faltam são demonstrações de afeto. Exemplo disso foi a cena protagonizada pelo jogador Luis Fabiano, que dedicou seu gol na partida contra a Costa do Marfim a sua filha Giovana que comemorava seus seis aninhos.

Outro jogador que sofre com a distância dos pimpolhos é Kaká. No dia 10 de junho, o filho do craque, Luca, completou dois anos de idade. Concentrado com a seleção na África do Sul, o meia passou a data longe do primogênito.

mãe e filho

Mas Kaká e Luis Fabiano não estão sozinhos. Assim como eles, muitos pais sofrem com a saudade dos filhos. Será possível enfrentar esta rotina de viagens e ausências decorrentes da profissão sem prejudicar a relação entre pai e filho?

Para a psiquiatra infantil da Unifesp, Vera Zimmermann, a presença física dos pais na vida dos filhos é um elemento organizador dos vínculos que devem ser construídos ao longo da vida, portanto deve ser respeitada. "A criança aprende as sensações que vivencia. Se a distância entre pais e filhos se torna frequente, deixam-se de viver algumas situações que são determinantes na relação afetiva e hierárquica necessária entre eles, por isso, o jeito é tentar construí-las mesmo que no improviso", explica Vera. 

É na infância que as bases se constroem

Aprendemos a gostar, dividir e respeitar o próximo na fase da infância. É na relação familiar que os valores se constroem e moldamos nossa personalidade. Para que este processo ocorra de forma saudável, a presença física e emocional dos pais é essencial e deve ser mantida sempre que a criança necessitar de cuidados e atenção.

"Tem pai e mãe que acha que estar presente nas datas especiais já é o suficiente para manter-se presente, no entanto, nem sempre estas datas são importantes para os filhos que muitas vezes gostariam de atenção no dia a dia em alguma fase especifica da vida deles, e não em alguma data especial", explica.

"O certo é estar por perto sempre, mas se isso não é possível, o melhor é fazer-se presente em momentos em que a criança peça e não que os pais julguem mais importantes", afirma a especialista. 

Reforço positivo

Pais e filhos

Quando o pai ou a mãe fica longe de casa, o ideal é que aquele que está perto da criança, reafirme a presença do outro através de reforço positivo.

Segundo Vera, este reconhecimento faz a criança aprender a trabalhar a sensação de rejeição. "A ausência vai ser sentida pelo filho de qualquer jeito, mas se houver um representação positiva em relação a figura ausente, os traumas serão menores. Tente dizer algo como: 'se seu pai ver isso vai ficar orgulhoso'; 'sua mãe está longe , mas está de olho em tudo o que você faz' e assim por diante. Isso ajuda a encurtar a distância emocional e amenizar a saudade", sugere. 

Rejeição x obrigação profissional

Muitas vezes a ausência dos pais pode ser entendida pelos filhos como rejeição. A criança, que não consegue compreender que a distância é causada pela obrigação profissional do pai e não por vontade de deixá-la sozinha, acaba se fechando em um mundo só dela e isso pode trazer problemas.

"Se a criança achar que a ausência do pai significa falta de afeto por ela, pode crescer com problemas sérios de relacionamento tanto na escola, com os amigos, quanto na vida a dois e até, posteriormente, com seus filhos. Por isso, o ideal é tentar, através de uma participação qualitativa, já que quantitativa é impossível, compensar os momentos de ausência com conversas, brincadeiras e muito carinho, para que assim, ela entenda sua importância naquela família", explica Vera.  

Colocando limites

Outro aspecto que fica bastante prejudicado com a ausência de um dos pais ou dos dois, é a questão dos limites. Principalmente na adolescência, é preciso muito cuidado e jogo de cintura para estabelecer regras e guiar os passos dos filhos.

A psiquiatra infantil da Unifesp explica que a melhor saída para manter a autoridade mesmo distante, é manter-se presente, nem que seja de longe, com torpedos, regras estabelecidas e fixadas em algum lugar bem visível na casa, telefonemas e sempre, muita conversa.

"Muitos pais acham que compensar a distância é fazer vista grossa para os erros dos filhos, que passam a não impor os limites necessários para que eles amadureçam. O mais correto é manter-se por perto de alguma forma e deixar claros os limites que a criança deve respeitar", explica. 

Ausência natural

Se a ausência dos pais dói na infância e deixa sequelas na adolescência, com o passar do tempo, pode se tornar natural na visão dos filhos.

A consequência disso pode ser uma certa dificuldade da criança de lidar com relações mais próximas na fase adulta. "Se eu cresço achando que a ausência é natural dentro da hierarquia familiar, posso ter dificuldades em perceber a importância da presença e me sentir sufocado ou cobrado por ela quando for adulto", explica a especialista. 

Encurtando distâncias

Pais e filhos

Se não dá para estar por perto 24 horas por dia como todos os pais gostariam, que tal usar a criatividade e participar da vida dos filhos à distância?

A ideia é criar uma relação afetiva e estável mesmo que separados, então, telefone, mande torpedos, deixe bilhetes, faça surpresas, grave um vídeo, fique em contato com a escola e com os amigos e deixe sempre muito claro o quanto ama seu filho.

"Se a criança se sente amada e respeitada, a distância é só um detalhe. O difícil é conseguir este resultado. Uma boa dica é estabelecer diálogos em que o filho possa compartilhar com os pais as suas angústias, ansiedades e incertezas sem medo de estar sozinho a qualquer sinal de perigo. Ligar sempre no horário combinado e manter um diálogo descontraído ajuda a mostra atenção, dedicação e afeto", explica Vera.

"O afeto se constrói a partir da qualidade dos momentos compartilhados e não da quantidade. É possível fazer da ausência uma forma de aproximação, desde que se aproveite sempre o contato com o filho para demonstrar o quanto ele é especial", afirma a especialista.  


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